A minha avó portuguesa era uma senhora simples. Nunca estudou. O avô dela foi um daqueles típicos casos de "fortunas" esbanjadas por causa do alcoolismo. O pai era um mulherengo irresponsável que passou a vida entre Portugal e o Brasil. Cada vez que vinha em férias, fazia um novo filho e voltava a deixar a mulher, a minha bisavó Rosalia, que criou todos os filhos cozendo e vendendo broas de milho. Lembro-me das papas de milho que me tentava impingir quando eu era pequena.
A minha avó não teve uma vida fácil. Teve 15 namorados (daqueles que mandavam flores e cantavam serenatas à janela), casou tarde (para a época), teve muita dificuldade para engravidar e perdeu o marido (por quem era realmente apaixonada) com um filho ainda miúdo nos braços: o meu pai.
As recordações que guardo dela são estranhas. Nunca foi uma avó típica, não era propriamente carinhosa mas nunca duvidei do quanto gostava de nós.
Quando vou "à santa terrinha" todos os velhotes me dizem que sou igualzinha a ela quando era nova. Aquilo que me lembra sempre dela são as cores vivas, ela gostava de cor - e em memória do marido só vestiu preto durante mais de 40 anos, nunca voltou a casar. Era uma senhora inteligente que não sabia ler mas era feliz por saber desenhar um R perfeitinho (primeira letra do nome da mãe, do 2º nome dela - que era o preferido- e dos nomes dos 2 únicos netos). Conhecia centenas de hinos e versículos bíblicos de cor. Quem não sabe ler, valoriza o que nós frequentemente banalizamos.
Ela usava palavras que nunca ouvi de outras pessoas. O meu irmão e eu até temos um projecto meio idiota de as listarmos sempre que nos lembramos de mais alguma. Gosto desta e hei-de passar a usá-la. A minha avó era assim.
estreme: que não tem mistura; puro; genuíno.